Hécate tem seu reino no Tártaro, e o ingresso a ele se faz por um bosque de álamos brancos sempre movidos por uma forte brisa.
Sempre me deixo perder por aqui. Ando, viro um corredor, caio em outro, tenho dó dos bichinhos, observo e cheiro. Cheiro mais que observo.
Ficava na confluência dos rios malditos que nossa memória bem recorda: o Estinge, o Aqueronte, o Averno, o Lete. Dante também os nomeia quando fala dos reinos infernais.
Ah agora sim! Uma Brahma por favor. Tudo bem, vai uma Heineken (garrafa bonita!) então. Em pé no balcão, não se esqueçam que é hora do almoço, aliás uma dúvida me aflige no momento: almoço aqui ou no Café Palhares?
Mais além de tais confins se encontra a pradaria de asfódelos e o palácio, onde vivem Hades e Perséfone. Hécate lhes faz companhia, ela que tem o poder de conceder aos mortais qualquer coisa que desejem.
Decido almoçar no Palhares ali pelas duas horas pois as três verei uma peça na Praça Sete. "Espreme que sai sangue", belo título para um espetáculo que fala de jornais.
Hoje é meu verdadeiro primeiro dia de férias depois de uma gripe avassaladora que me acamou por quatro dias. Ao menos não tive febre.
A morada de Hécate era cercada de álamos negros e ciprestes.
Me passa um açougueiro com a blusa que é puro sangue fresco. Cheiro forte.
A confirmação da viagem para Recife em setembro me fez mudar os planos. Tendo a ir para Itabirito, embora me indicaram Catas Altas, num belo e barato passeio de trem, além de um lugarejo próximo que se chega andando e é cheio de cachoeiras. Pode ser. Tenho tempo para pensar...
Mas Hécate vinha a Terra com muito mais frequência que Hades ou Perséfone: precisamente há cada vinte e oito dias.
Kit feijoada para seis pessoas. Interessante isso.
Depois da peça, antigo galpão 104 tecidos, outra Praça, agora a da estação. Performaces.
Estrangeiros deslumbrados passam por mim.
A língua do meu tênis se soltou do mesmo. Penso em arrancar a outra.
Por isso em suas aparições essa Lilith grega espalhou terror: é aquela que fere de longe, a seu bel-prazer.
Ai, ai, esse lugar desentope qualquer nariz.
Bye, bye garotos.
Ainda preciso ler meu jornal.
*Trechos extraídos do livro: Lilith, a lua negra, de Roberto Sicuteri, gentilmente emprestado pelo grande amigo Eduardo, mais conhecido como Dudu, que circula ali pelas bandas do bar do Derli, os quais indico a todos. O livro, o bar e o amigo.