UM CONTO(Parte II)
Ao subir a grande escada que o conduziria ao interior da nave, sentiu-se zonzo. Tropeçou no quinto degrau e quase foi levado ao chão.
Haviam cinco pessoas na fila. Um adolescente com a face cheia de espinhas e muito bem vestido era o próximo. Lembrou de verificar suas roupas. Calçava um sapato muito sujo. A calça estava lavada mas ele não a passara. Nunca passava suas calças jeans. Após, haviam duas senhoras que esfregavam os terços nas mãos com grande aflição. Logo em seguida uma mulher de meia-idade, muito bonita. Não conteve um pensamento de desejo. Se sentiu ridículo e deu uma risadinha nervosa e desajeitada. Este fato chamou a atenção do homem que estava a sua frente. Foi olhado dos pés a cabeça por dois olhos curiosos. Em sua aflição procurou se distrair e contemplar as imagens sacras. Passeou seu olhar pela grande igreja. Concentrou-se primeiramente na imagem de Nossa Senhora, aos pés da qual se estendia uma infinidade de velas. Logo em seguida viu a pia batismal. Olhou para o teto e deparou-se com uma magnífica pintura que lhe fez lembrar dos grandes artistas renascentistas. O homem continuava a observá-lo.
-Bela obra não acha?-perguntou, mas se arrependeu instataneamente.
-Oh, sim. Só não concordo muito com a imagem dos anjos.
Sentiu uma onda de constragimento e arriscou:
-É, realmente. Parece que as asas não combinam muito com o corpo humano.
-Ora, a razão não é essa. O problema é que eles sempre aparecem nus. Não vejo nisso uma coisa pura.
-Oh, é claro. Nunca tinha pensado nisso - e sentiu uma grande vontade de se retirar e fumar um cigarro.
No mesmo instante o jovem saiu do confessionário e se ajoelhou na terceira fila de bancos que cincundavam o altar. Orava fervorosamente e com a cabeça envolta em suas mãos chorava. Novamente a sensação de retirar-se o afligiu.
(continua...)
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