UM CONTO
A noite novamente. Com sua lua (hoje obscurecida, ora sim ora não, por pequenos filetes de nuvens) e seus fantasmas (tão assustadores como antes). A penumbra de uma rua mal iluminada desperta uma estranha sensação. O medo da solidão, ou pior, o medo de encontrar-se com alguém. Passar ao fundo de uma igreja e ser atirado a uma infinidade de idéias e apreciações sobre o que acontece no seu interior. Quantas dores, confissões, uniões, padres, coroinhas, comunhões, desespero, missas, hóstias, vinho, dinheiro. "Há anos não entro em uma", pensou. Não se recriminava. Urinou no muro pichado. Uma leve letargia o envolvia. Gostaria de conversar com o padre. Discutir seria o verbo mais aplicável. "Onde estaria Deus?". Deu a volta no quarteirão e chegou a entrada da igreja. Havia um grupo de mendigos deitados sob uma marquise a uns dez metros de distância. Encostou-se em uma árvore, acendeu um cigarro e ficou a contemplar a monstruosa construção. Automaticamente veio-lhe a imagem de Jesus na cruz. Sangue, coroa de espinhos, dor. Voltou seu olhar para o grupo envolto em cobertores esfarrapados, sujos e mal-cheirosos. Uma ratazana farejava algo próximo a um pé descoberto. Resolveu no outro dia se confessar ao padre.
Como as outras foi uma noite mal dormida. Ao acordar sentiu repugnância de si próprio. Chorou. Haviam anos que suas lágrimas não escorriam com tamanha volúpia. "A angústia é a pior das sensações". Se sentia preso em sua dor.
Caminhou até a Igreja resoluto em sua decisão. Se confessara uma vez, quando fizera a primeira comunhão. Dissera: "Padre, sou um pecador. Não rezo à noite, briguei na escola duas vezes e roubei a merenda do Gustavo." Mentira, não havia feito nada disso, só estava preocupado por não ter tido nenhum ato para se arrepender. Mas como chegar no confessionário e ficar calado? O que pensaria o padre? Apropriou-se das palavras de seus colegas que comentavam o que iriam dizer. Após, se sentiu leve e feliz. Podia engolir o corpo do Senhor.
(continua...)